Esse era o pensamento de Ana, enquanto espiava a saída do grupo,
só para vê-lo, mesmo à distância, onde estacionara.
Seu sentimento era de frustração, revolta, ambivalência e uma
angústia profunda.
Seu relacionamento atual há muito já não vinha bem, mas
sentia-se responsável pelo namorado, único que tivera após a
separação. Ele não contava com mais ninguém.
Sempre ela a cuidadora.
Droga de vida.
Pro Inferno, queria viver e ser feliz também.
Foi quando conheceu Henrique, no grupo de leitura.
Uma das raras coisas que fazia de diferente.
Um oi daqui, outro de lá e começaram a conversa.
E o papo foi bom, o primeiro, o segundo e todos que se
seguiram.
Era um cara inteligente, meio comprometido, mas não casado.
Trabalhava para uma multinacional e às vezes passava o ano
fora do Brasil.
Se houve atração? Foi de cara, tipo raio, antes mesmo de
conversarem.
Inevitável que dois adultos, maduros não fossem além.
Mas não impossível.
Ana sabia ser ao mesmo tempo ré, promotora, juiz, jurados,
menos defensora.
E antes do ato ser aventado, já estava condenada e sentenciada.
Essa era ela.
Aos outros “in dúbio pró-réu”.
Para si, perpétua sem apelação.
Sempre se considerara com os pés no chão, mas agora tinha
dúvidas se não era autoflagelação.
Não havia como ir ao grupo sem ver Henrique, o que era
demais pra ela. Deixou de ir.
Tinha posto as cartas na mesa pra ele, o que só o confundiu.
Paciência.
Nem ela se entendia.
Bem que podia ter se permitido uns momentos de alegria.
Nesse tempo o pessoal começou a sair: Paula, Claudio, todos um à
um. Por fim Júlio, que fechara a porta da livraria.
Nada de Henrique.
Com um nó na garganta, ligou o motor, acendeu um cigarro, trocou
a música e foi dar uma volta na cidade vazia, repetindo para si:
Pés no chão, Ana!
Tânia Kvalknt

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