domingo, 9 de junho de 2013

QUERIA ESQUECER



                     

     Têm coisas que tentamos esquecer, mas elas retornam quando
menos esperamos.
     Faço uma oficina de escrita, na qual geralmente temos que
elaborar um texto de uma aula para outra.
     Não sei se ao acaso, mas dois “temas” apresentados, no último
encontro, faziam referência a figura materna.
     Isso me tocou profundamente, porque lembrei em particular
de uma situação que passei na infância.
     Eu estava na 5ª serie, quando tivemos que nos mudar para
um hotel, pois nossa casa já vinha em reformas há uns três
anos e nem sinal de terminar. O jeito foi sairmos de lá.
     Minha irmã mais velha ficou no internato das Cônegas,
famoso colégio da época. 
     Meus pais, meu irmão menor e eu fomos para o Hotel
Embaixador, que era bem mais simples então; Sequer um
restaurante contava.
    Meu irmão ainda nem frequentava a escola.
Então imaginem o quadro desolador: oito meses trancafiados
num quarto.
     Mas o ruim mesmo ainda estava por vir: tivemos Coqueluche,
eu e ele!
     Se algum de vocês já teve sabe ao que me refiro.
 E na situação em que estávamos era o equivalente a perambular
 por alguns círculos do Inferno de Dante.
     Foi um horror. Toda minha turma na escola pegou, motivo
pelo qual eu não fiquei impedida de comparecer as aulas (só
no inicio).
     Mas eram tenebrosos os acessos de tosse e lembro que punha
lenços entre os dentes para cerrar a boca e travar os ataques,
o que, se não me falha a memória, parecia aliviar.
     Antônio, meu irmão, teve um quadro mais leve.
Afinal as coisas foram se ajeitando e antes do término do
ano escolar já estávamos em casa.
     E o melhor de tudo: eu passara em primeiro lugar na turma!
Com tudo aquilo e tendo que aguentar todos os mimos
voltados para o Antônio, enfim chegara minha vez.
Não via a hora de a mãe receber orgulhosa o meu boletim
em frente de todos os colegas.
      Que custo esperar o dia da entrega!
Mal sabia eu.
      Sorte minha ter uma irmã mais velha, que sorridente 
recebeu a pequena carteira cheia de medalhas, desviando os
olhares de mim.
      A mãe não foi porque tinha a casa e meu irmão para cuidar.
     Essa eu sempre tento esquecer!
                          Tânia Kvalknt

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