Hoje está um dia lindo.
Estranhamente, é nesses dias que mais me recordo dele, mesmo passados quase quarenta anos.
Meu Deus!
Ainda éramos oito naquela época: Regina, Laura, Rafael, João, Marina, eu, Claudio e Roberto.
Não sei porque, sempre achei que ele era o melhor de nós todos. O único que tivera coragem de
enfrentar meu pai, ficando ao lado de Regina quando ela engravidara; O único que se libertara da
tirania, saindo de casa, mas de maneira inteligente: fora para Barbacena, para Escola de Pilotos da
Aeronáutica.
Éramos parecidos fisicamente, cabelos castanhos, nariz arrebitado, boca avantajada e as
covinhas características da família. Mesmo com aquele corte de cabelo infame ele era bonito.
Nos anos seguintes me acostumei com sua ausência.
Depois de Barbacena, viera Natal e ele só retornava nas férias de verão, o que fazia com que eu
ficasse mais concorrida entre as amigas.
Mas aparentemente ele nunca havia se interessado por ninguém.
Fiquei pasma quando naquele ultimo ano, ele resolveu assumir o namoro com Lívia, minha melhor
amiga. O pior é que a coisa era séria e já rolava fazia tempo.
Aquilo para mim foi como uma traição. Ela era a minha amiga! Onde ficavam os meus segredos?
Durante todo aquele ano descontei nela minha frustração, sem imaginar o que viria.
Jamais, mas jamais mesmo, me passara pela cabeça que algo pudesse lhe acontecer, mesmo
sendo um aluno de aviação. Que de todos nós, fosse ele o primeiro a morrer.
Ele era o mais saudável, o mais regrado, o mais certinho!
O acidente ocorreu dois dias depois de ele receber o brevê das mãos do Ministro da Aeronáutica.
Fora o melhor da turma.
Foi uma confusão.
Teve que ser velado em Natal antes de vir.
Aqui parecia coisa de filme. O caixão lacrado e coberto.
Quatro colegas fazendo guarda, em revezamento (veio uma tropa de guris).
Por fim aquele tenebroso Toque do Silêncio e a entrega da bandeira dobrada para Lívia.
Tinha vontade de arrancá-la das mãos dela. Não foi preciso.
Ela entregou o triste troféu para minha mãe.
Continuamos amigas por um tempo, mas uma amizade diferente.
Hoje aposto que ela nem lembra dele, afinal foi apenas um namoro da adolescência.
Não é como perder um irmão, sem nunca antes ter tido contato com a morte.
É uma lembrança que faz parte de mim; Uma saudade doída que teima em permanecer.
Tânia Kvalknt
Estranhamente, é nesses dias que mais me recordo dele, mesmo passados quase quarenta anos.
Meu Deus!
Ainda éramos oito naquela época: Regina, Laura, Rafael, João, Marina, eu, Claudio e Roberto.
Não sei porque, sempre achei que ele era o melhor de nós todos. O único que tivera coragem de
enfrentar meu pai, ficando ao lado de Regina quando ela engravidara; O único que se libertara da
tirania, saindo de casa, mas de maneira inteligente: fora para Barbacena, para Escola de Pilotos da
Aeronáutica.
Éramos parecidos fisicamente, cabelos castanhos, nariz arrebitado, boca avantajada e as
covinhas características da família. Mesmo com aquele corte de cabelo infame ele era bonito.
Nos anos seguintes me acostumei com sua ausência.
Depois de Barbacena, viera Natal e ele só retornava nas férias de verão, o que fazia com que eu
ficasse mais concorrida entre as amigas.
Mas aparentemente ele nunca havia se interessado por ninguém.
Fiquei pasma quando naquele ultimo ano, ele resolveu assumir o namoro com Lívia, minha melhor
amiga. O pior é que a coisa era séria e já rolava fazia tempo.
Aquilo para mim foi como uma traição. Ela era a minha amiga! Onde ficavam os meus segredos?
Durante todo aquele ano descontei nela minha frustração, sem imaginar o que viria.
Jamais, mas jamais mesmo, me passara pela cabeça que algo pudesse lhe acontecer, mesmo
sendo um aluno de aviação. Que de todos nós, fosse ele o primeiro a morrer.
Ele era o mais saudável, o mais regrado, o mais certinho!
O acidente ocorreu dois dias depois de ele receber o brevê das mãos do Ministro da Aeronáutica.
Fora o melhor da turma.
Foi uma confusão.
Teve que ser velado em Natal antes de vir.
Aqui parecia coisa de filme. O caixão lacrado e coberto.
Quatro colegas fazendo guarda, em revezamento (veio uma tropa de guris).
Por fim aquele tenebroso Toque do Silêncio e a entrega da bandeira dobrada para Lívia.
Tinha vontade de arrancá-la das mãos dela. Não foi preciso.
Ela entregou o triste troféu para minha mãe.
Continuamos amigas por um tempo, mas uma amizade diferente.
Hoje aposto que ela nem lembra dele, afinal foi apenas um namoro da adolescência.
Não é como perder um irmão, sem nunca antes ter tido contato com a morte.
É uma lembrança que faz parte de mim; Uma saudade doída que teima em permanecer.
Tânia Kvalknt

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