quinta-feira, 23 de maio de 2013

UM CONTO TRISTE


     Hoje está um dia lindo.
     Estranhamente, é nesses dias que mais me recordo dele, mesmo passados quase quarenta anos.
     Meu Deus!
     Ainda éramos oito naquela época: Regina, Laura, Rafael, João, Marina, eu, Claudio e Roberto.
     Não sei porque, sempre achei que ele era o melhor de nós todos. O único que tivera coragem de
enfrentar meu pai, ficando ao lado de Regina quando ela engravidara; O único que se libertara da
tirania, saindo de casa, mas de maneira inteligente: fora para Barbacena, para Escola de Pilotos da
Aeronáutica.
     Éramos parecidos fisicamente, cabelos castanhos, nariz arrebitado, boca avantajada e as
covinhas características da família. Mesmo com aquele corte de cabelo infame ele era bonito.
     Nos anos seguintes me acostumei com sua ausência.
Depois de Barbacena, viera Natal e ele só retornava nas férias de verão, o que fazia com que eu
ficasse mais concorrida entre as amigas.
     Mas aparentemente ele nunca havia se interessado por ninguém.
     Fiquei pasma quando naquele ultimo ano, ele resolveu assumir o namoro com Lívia, minha melhor
amiga. O pior é que a coisa era séria e já rolava fazia tempo.
     Aquilo para mim foi como uma traição. Ela era a minha amiga! Onde ficavam os meus segredos?
     Durante todo aquele ano descontei nela minha frustração, sem imaginar o que viria.
Jamais, mas jamais mesmo, me passara pela cabeça que algo pudesse lhe acontecer, mesmo
sendo um aluno de aviação. Que de todos nós, fosse ele o primeiro a morrer.
     Ele era o mais saudável, o mais regrado, o mais certinho!
     O acidente ocorreu dois dias depois de ele receber o brevê das mãos do Ministro da Aeronáutica.
Fora o melhor da turma.
     Foi uma confusão.
     Teve que ser velado em Natal antes de vir.
     Aqui parecia coisa de filme. O caixão lacrado e coberto.
Quatro colegas fazendo guarda, em revezamento (veio uma tropa de guris).
     Por fim aquele tenebroso Toque do Silêncio e a entrega da bandeira dobrada para Lívia.
Tinha vontade de arrancá-la das mãos dela. Não foi preciso.
     Ela entregou o triste troféu para minha mãe.
Continuamos amigas por um tempo, mas uma amizade diferente.
     Hoje aposto que ela nem lembra dele, afinal foi apenas um namoro da adolescência.
     Não é como perder um irmão, sem nunca antes ter tido contato com a morte.
É uma lembrança que faz parte de mim; Uma saudade doída que teima em permanecer.
               Tânia Kvalknt

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