sexta-feira, 26 de abril de 2013

Já fui criança uma vez e já penei um bocado;
Cada coisa que inventam. Olhem só essa:

                                              
Sapatos de Cinderela

Alguém de vocês é capaz de lembrar dos inconfundíveis sapatos Vulcabrás?
Eu não tenho como esquecê-los. E já se vão quarenta e nove anos que não
uso um deles! E lhes digo com sinceridade que não é pelo fato de serem feios,
aliás horriveis, mas porque eu era obrigada a calçá-los nos pés trocados.
Era o tratamento que o Ortopedista, escolhido por meus pais , óbvio,
recomendara para eu seguir.
   O maior problema em toda a situação , é que eu cursava minha primeira série escolar,
num colégio de freiras, só para meninas; Minto. Nas primeiras três séries eram
admitidos meninos. Eramos perto de trinta alunos na turma, sendo cinco, meninos.
   Agora imaginem  vinte e poucas meninas , bem mimosas , cinco meninos tão
enturmados quanto Araras no norte do Canadá, e eu, com meus sapatos
emborrachados, nos pés trocados.
   Havia um certo desequilíbrio de grupos, digamos assim: meninas, meninos e eu.
   Tenho lembrança de ser boa aluna dentro da sala de aula e tirar boas notas.
Mas uma interação se fazia necessária e já que não me era permitido bater em meninas,
tornei-me o terror dos guris nos recreios.
   Foi um ano também inesquecível para minha mãe, pois toda semana era convidada
a comparecer na escola e escutar  a mesma ladainha.
   E como dizem, nada é para sempre , o ano findou e apesar de tudo eu passei.
   Advinhem qual foi meu maior presente naquele Natal? O do meu Ortopedista!
Estava livre dos malditos Vulcabrás enviezados.
   Quando a segunda série iniciou me senti como uma Cinderela, usando um simples
par de sapatos pretos, cada qual em seu respectivo pé.
                                           
                                    


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